Gabriele Leite no Festival MIMO 2026, em Olinda/PE


A violonista Gabriele Leite apresentou um recital sensacional no MIMO Festival 2026, em Olinda/PE, esbanjando muita musicalidade e pujança rítmica. O repertório abarcou destaques do violão clássico e do violão brasileiro, mas também trouxe peças ainda pouco tocadas de Lina Pires de Campos e composições da própria artista.

Gabriele tocou com o violão plugado, algo ainda não muito bem aceito no âmbito mais conservador do violão (onde geralmente se aceita apenas uma microfonação muito natural); isto evidencia a postura da artista, que transita muito bem entre a tradição do violão clássico brasileiro e novas perspectivas de público, projetos e parcerias. Em outra quebra de paradigma com o conservadorismo da música erudita, a artista explicou, logo no início, que o público poderia se sentir à vontade para aplaudir quando quisesse - a “proibição” de se aplaudir entre movimentos costuma gerar situações constrangedoras entre o artista e o público.

O repertório foi inaugurado com Bate-coxa, de Marco Pereira, uma peça extremamente virtuosística, que apenas violonistas muito corajosos como Gabriele ousam inserir como abertura de um programa. A violonista nos apresentou esse desafio com muita leveza, musicalidade e virtuosismo.

A seguir, um conjunto dedicado a Villa-Lobos: Melodia sentimental, Mazurka-chôro, Schottisch-chôro e Prelúdio nº 2. Embora um repertório muito tocado, sentimos em suas interpretações um certo frescor, com muita musicalidade, lirismo e ginga brasileira.

Gabriele falou com o público sobre os seus dois álbuns: Territórios, no qual gravou peças consagradas do repertório violonístico, e Gunûncho, com repertório exclusivo de compositoras, que recebeu o Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira 2026 na Categoria Lançamento Erudito. Tocou, então, três peças espetaculares de Lina Pires de Campos: Prelúdio nº 3, Prelúdio nº 2 e Ponteio e Toccatina; as conduções melódicas de Gabriele são transcendentais, mesmo em meio a demandas técnicas tão desafiadoras.

Ritmata, de Edino Krieger, marcou o momento de música contemporânea do recital. Uma das peças mais tocadas do repertório brasileiro nessa linha, esta possui grande comunicabilidade com o público, tanto por sua construção impecável, quanto pela questão visual, proporcionado pela utilização percussiva do instrumento de diversas formas. Gabriele traz muito fluxo e ginga às complexidades rítmicas determinadas pela partitura.

Como quebra a esses experimentos contemporâneos, a artista seguiu o programa com três grandes nomes da música brasileira: Dilermando Reis (Se ela perguntar e Dr. Sabe Tudo), Garoto (Jorge do Fusa e Lamentos do morro) e Chiquinha Gonzaga (Corta-jaca e Lua branca). Há muito, nesse repertório, do lirismo e balanço brasileiros, aqui muito bem definidos e contrastados pelas mãos e mente de Gabriele.

Para fechar o repertório, a violonista apresentou suas composições, os singelos Nano-estudos que encerram o álbum Gunûncho, e o emblemático Jongo, de Paulo Bellinati, arrancando, como ao longo de todo o recital, aplausos efusivos dos presentes.

Isto é Gabriele Leite: uma artista que mantém um repertório tradicional, porém traz uma assinatura performática muito consistente; que quebra paradigmas da música de concerto e amplia seus territórios; uma mulher negra de origem simples que leva uma tradição majoritariamente branca, masculina e de classe média para novos públicos, com muita consistência artística e musical.




Crédito da Imagem: Foto de Myrna Barreto

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