Taj Ma House - Entrevista no MADA 2025, em Natal/RN
Texto introdutório por
William Robson / Realização da entrevista por Renan Simões / Transcrição da
entrevista por Renan Simões
[Myrna Barreto e Renan
Simões realizaram uma cobertura do Festival MADA 2025, em Natal/RN, para o site
Bolsa de Discos]
Das
noites quentes de Natal para os palcos da Europa, o Taj Ma House tem
transformado a cena eletrônica potiguar em um caldeirão vibrante de sons,
ritmos e identidades. O projeto, formado por Janvita, Pajux, Elisa Bacche e
Clara Luz, nasceu do encontro entre artistas múltiplos, todos com trajetórias
sólidas na música, e que decidiram fazer da pista de dança um espaço de
liberdade, ancestralidade e celebração.
Definido
por eles como um live set que mistura performance, percussão ao vivo e canto, o
Taj Ma House é mais do que uma banda - é um movimento. Um encontro onde o house
se mistura ao brega, ao axé, à swingueira e à MPB, criando uma sonoridade que
eles mesmos batizaram de “house music potiguar”.
Depois
de uma turnê meteórica pela Europa e com passagem pelo Festival MADA 2025, o
grupo vive um momento de amadurecimento intenso, consolidando sua identidade
artística e reafirmando o poder da pista como território de afeto e expressão.
Nesta
entrevista ao Bolsa de Discos, conduzida por Renan Simões, após show no
festival MADA, as quatro vozes do Taj Ma House falam sobre suas origens, o
processo criativo, as influências e a energia que move essa verdadeira casa
sonora - um lugar onde, como diz Janvita, “a pista de dança me fez gente”.
Renan Simões (Bolsa de Discos) - Quem é Taj Ma House e
quais são as suas maiores influências musicais e inspirações artísticas?
Janvita - Taj Ma House é simplesmente uma ode à pista
natalense, como a minha grande amiga Pajux Frank fala em todos os nossos shows.
Nada mais que isso. É a junção de muitos artistas, cantores, multiartistas;
porque hoje, ao fazer arte, a pessoa não é só isso, a pessoa é tuda. Então, é a
junção desses multiartistas fazendo e celebrando a cena de house music
natalense. E aí, obviamente, com as nossas inúmeras vivências e referências de
música, seja da swingueira, do axé, do forró, do brega, das músicas mais
eletrônicas da década de 80, house music tradicional, MPB. Taj Ma House
realmente é um grande remix de muitas coisas.
Pajux - A gente procura ser um vitral: pegar essas
referências, ter o nosso próprio formato e fazer com que isso vá surgindo, para
criar uma pista que seja pulsante e acolhedora ao mesmo tempo. Então, é uma
casa mesmo, onde a gente vai recebendo os convidados e eles saem vestindo a
nossa roupa, às vezes lavam a louça (risos).
Janvita - É, acho que é isso. Esse é o Taj Ma House, né?
Pajux - Mas, explicando objetivamente, somos quatro
pessoas, todas as pessoas cantam, e aí tem DJ e tem percussões ao vivo. É
importante falar como é que funciona esse projeto.
Janvita - É um live set.
Pajux - O show é como se fosse um set de DJ e ao mesmo
tempo é um show de banda ao vivo. São as duas coisas ao mesmo tempo, esse
hibridismo.
Renan Simões (Bolsa de Discos) - Como é que vocês
definem, no momento, o som de vocês?
Pajux - House... House music... Potiguar.
Renan Simões (Bolsa de Discos) - Eu vi o EP hoje,
maravilhoso!
Pajux - É house music potiguar, house music nordestina. O
house é uma cultura profunda, é uma cultura que tem muitos anos e que com um
impulso muito forte de comunidades marginalizadas que criam esse som, e que
decidem se divertir acima de tudo e apesar de tudo. O que a gente faz é trazer
essa festividade, trazer esse impulso e esse formato junto de sons que a gente
cresce ouvindo por aqui, e fazer com que isso seja cada vez mais sedutor, sabe?
A gente gosta muito de groove, a gente gosta muito do swing e, ao mesmo tempo,
a gente tem o prazer de ter esses elementos que vão aparecendo e que criam essa
paisagem sonora que faz com que a nossa casa se pareça com o lugar onde a gente
mora. É uma característica da house music: onde ela chega, ela absorve as características
do lugar. Então você tem house music no mundo todo, você tem na Índia, você tem
no Japão e em todos esses lugares ela absorve isso. É muito gostoso poder ter
essa contribuição potiguar nordestina para esse gênero musical, que é uma coisa
mundial e que existe uma comunidade mundial em torno disso também.
Renan Simões (Bolsa de Discos) - E como vocês veem que a
música de vocês se insere no cenário da música eletrônica (potiguar, nacional e
internacional)?
[“Eita” geral]
Pajux - Rapaz, olha, aqui em Natal tá tudo dominado!
(risos) Eu tô falando sério. Aqui em Natal tem essa coisa de que todos nós já
somos da cena há muitos anos. A DJ que começou há menos tempo é Janvita, há 10
anos. Então todo mundo já faz parte, já tá inserido nesse tecido da cena daqui
há muito tempo. Clara é a novata, ela é vocalista há 20 anos, mas é a novata,
pra vocês verem.
Elisa Bacche - Da música eletrônica é ela a novata.
Pajux - É a novata, mas que é uma vocalista há 20 anos, e
então ela já puxa a gente pra todo esse outro lado. Fala aí, mulher, do seu
lado!
Clara Luz - Ai, meu Deus! Eu tenho um trabalho de cantora
e compositora há mais de 20 anos, e meu trabalho é todo calcado na pesquisa da
diáspora negra. Durante um período, eu cantei muito blues, soul. Durante outro
período foi muito mais música eletrônica. A gente foi puxando a música
eletrônica e a gente fez um pouco de funk do Rio de Janeiro e tal. No meu
último trabalho solo, que se chama Clara Luz, que é homônimo, a gente
fez um trabalho muito voltado à musicalidade brasileira dos anos 80, com muita
referência de Marina. Foi aí que Pajux me enxergou, porque eu encontrava ele na
noite e ele fingia que não me via.
Pajux - Eu já disse que é mentira sua, eu já disse que
não é assim. (risos)
Clara Luz - E aí ele e Janvita me viram. Depois de um
tempo, ele foi fazer um DJ set e me chamou pra fazer uma intervenção. Janvita
chegou no ensaio. Eu não conhecia ela, mas quando ela começou a cantar, eu
fiquei estarrecida! Eu lembro que a gente foi pegar você, e você cantou a
música no carro e eu chorei. Você lembra disso?
Janvita - Eu lembro, mulher!
Pajux - Chique lembrança!
Clara Luz - A gente fez esse ensaio nós três, e a gente
sentiu que precisava de uma coisa orgânica, e aí chamamos Elisa.
Pajux - Que já vinha com uma carreira de DJ incrível.
Notoriamente destaque, porque ela já fazia percussão ao vivo nos sets.
Clara Luz - E tem uma coisa que eu quero falar de Elisa,
é que a gente tá aqui em Natal, ensaiando na nossa precariedade do dia-a-dia,
três microfones para quatro vozes, e Elisa ensaia com um tambor e dois bongôs.
Quando ela chegou com um set de instrumentos eu olhei e falei “que porra é
essa?” Boy, quando ela começou a tocar eu fiquei impressionada, sabe? Você
ensaia com dois tambores e depois você tá com 15, irmão! Ela é foda, velho! Ela
é foda! (risos)
Pajux - É a mulher dos mil dedos! (risos)
Janvita - É a junção de muitos artistas que se admiram na
verdade, né? A gente sempre veio nesse lugar de muita responsividade ao
trabalho do outro. Tipo, eu entrei na cena a partir da Houssaca, que é a festa
nave mãe da house music potiguar, onde há boa parte de quem hoje é DJ aqui em
Natal. É uma festa produzida por Frank [Pajux].
Pajux - Alô Mossoró! Dia 8 de novembro vai ter DJ Hunter
de Mossoró, ela estará aqui tocando nos 10 anos da Houssaca! Tem que ter
Mossoró!
Janvita - E é isso, velho, tipo, velho, ah, perdi meu
raciocínio! (risos)
Pajux - Não é a primeira vez que isso acontece hoje!
Anote também, Mossoró! (risos). Ela tá perdidinha hoje.
Janvita - Tô nada, eu me encontro em cima do palco! Mas é
isso gente, é isso.
Todos - Ouçam, ouçam, ouçam, ouçam, ouçam!
Janvita – Ah, uma coisa que eu queria muito falar, e que
também eu acho que seria muito legal. Estamos voltando aqui pro Festival MADA,
do qual a gente participou do ano passado também, e nesse ano a gente volta com
uma bagagem do caramba, depois de ter feito uma Eurotour, de ter passado por
grandes experiências. Foi meteórico, acho que é um amadurecimento meteórico, é
um crescimento meteórico que forçou muita gente a olhar o Taj Ma House. Por
mais que no início a gente visse como um hobby que preenchesse muito a gente de
paixão, hoje eu vislumbro como uma possibilidade de não viver uma vida de CLT
de oito horas por dia, e eu poder me dedicar completamente à minha arte e
trazer um trabalho muito melhor pra todas nós. Na verdade, todas nós podemos
nos dedicar, se aprofundar. Enfim, eu acho que é muito disso. Fazendo a
cabeça é uma música que fala muito sobre o quanto a gente precisa se
divertir, o quanto a gente precisa de lazer, de alegria, de coisas que fazem
com que a gente realmente se eleve, seja gente. A pista de dança foi o lugar
onde me fiz gente, entendeu? Olha que lugar! Que lugar, né? (risos) Mas, bem,
eu tô dando uma entrevista porque lançamos um disco, então quer dizer que
alguma coisa funcionou, né?
Elisa Facche - E está funcionando!
Pajux - “A pista de dança me fez gente”.
Janvita - A pista de dança me fez gente, amor!
Pajux - É babado, mas é verdade.
Renan Simões (Bolsa de Discos) - Últimas perguntas: há
quanto tempo o grupo existe e quais são os planos futuros?
Pajux - Três meses! (risos)
Janvita - Um ano e dez meses.
Clara Luz - Todas nós temos as nossas particularidades as
nossas coisas incríveis que fazemos, mas eu acho que uma das pessoas que
consegue enxergar no futuro é Frank [Pajux]. A gente tá aqui gravando o EP,
pensando no EP, ele “não, mas o disco...! o disco...!”, e eu acho foda esse
quebra-cabeças que ele faz.
Pajux - Meu negócio desde o começo é o disco, é a coisa
de como é que a gente vai te contar essa história. Eu venho do DJ set, então
pra mim, se eu tô tocando a primeira música como DJ, eu tenho as próximas horas
que vão surgindo na cabeça. A gente tem muita mentalidade de DJ, e eu acho que
isso ajuda muito até mesmo na hora de compor. A Elisa fala, na hora de compor,
“esse batuque que vai vir aqui, porque na próxima música ele vai ter uma
resposta lá”. Essa é uma mentalidade de DJ que a gente vai aplicando e eu acho
que isso impulsiona muito a gente a pensar as coisas na frente. Aí, juntando o
ponto que você falou com o que Javita falou agora, a gente consegue ter um
pouco mais de possibilidades, e por isso que Festivais como MADA e outras
oportunidades são importantes, porque o que você vai amadurecendo no palco você
vai vislumbrando com o que você pode fazer, também vai se aprofundando na sua
própria arte, você vai puxando as referências, você vai puxando a corda.
Janvita - Se arriscando mais também.
Pajux - Você vai dando corda a si mesmo, e isso modifica
tudo, né?
Elisa Bacche - A gente deve muito disso à pista mesmo, realmente a pista fez a gente. Pontuar “caramba, isso aqui é legal”, “isso aqui acho que a gente tem que tirar, não rolou muito bem”; é uma construção que é coletiva e contínua. Então, se a gente hoje tá aqui no MADA, é porque a gente veio construindo isso e as pessoas estão gostando, e a gente tá gostando também. O importante é isso. Se você chega na nossa casa e a gente quer curtir com você, então é isso: curta, desfrute e ame o que a gente também tá amando fazer.
Texto revisado por Myrna Barreto
Crédito das imagens: fotos de Myrna Barreto e Assessoria Taj Ma House
Publicado também no site Bolsa de Discos


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