Beto Guedes - 27º Festival Jazz & Blues de Guaramiranga/CE
[Myrna Barreto e Renan Simões realizaram uma cobertura do 27º Festival Jazz & Blues de Guaramiranga/CE para o site Bolsa de Discos]
A expectativa era grande. Beto Guedes, um dos
meus grandes ídolos e responsável pelo meu álbum favorito da música brasileira
(conferir os Meus 107 Melhores Discos da Música Brasileira) estava para chegar a
qualquer momento. A hora do show se aproximava, e além de nós haviam muitos fãs
com LPs em punho, na esperança de conseguir autógrafos e fotos. A assessoria do
artista foi muito sensível aos presentes e permitiu que todos, com a devida
agilidade, tivessem uma mínima parcela de tietagem junto a Beto. Foi um momento
leve e inesquecível.
Em meio à correria, não conseguimos a almejada
entrevista, mas o artista comentou brevemente sobre esse momento de celebração
da carreira, após tantos discos, encontros, parcerias e amigos na música.
Reforçou também a importância histórica do festival de Guaramiranga, do qual
ficou muito honrado e feliz de participar e ser homenageado.
No palco, após o momento da homenagem, Guedes começou com tudo, com Balada dos quatrocentos golpes, composição de Luiz
Guedes (primo de Beto) Thomas Roth e Márcio Borges, onde já ficou evidente o som redondo da banda e a voz rebeldemente
afinada de Beto - junto à sua bonita e sentida performance à guitarra. A banda
contava com Ian Guedes (filho do artista) na guitarra, Will Motta nos teclados,
Adriano Campagnani no contrabaixo e Cyrano Almeida na bateria. A seguir, fomos
presenteados com as quebradeiras rítmicas de Canção do Novo Mundo,
parceria do artista com Ronaldo Bastos.
Espelhos d’água (composição
de Dalto e Claudio Rabello) foi a única canção mais “recente” do setlist, registrada
em 1999, em meio a um repertório que focou na fase áurea do artista - entre o final
dos anos 70, quando iniciou sua carreira solo, e meados dos anos 80. Esta e a
seguinte, a esplendorosa Nascente - que contou com uma versão mais
movida -, tiveram grande participação em coro do público, o que se repetiu por
diversas vezes ao longo do show.
A música Gabriel (Guedes e Bastos) nunca me
desceu, mas não deixa de soar fofinha, e consistiu em um momento introspectivo
agradável, com solos de Guedes e do baixista. A breguíssima Quando te vi
(versão de um cover dos Beatles) é maravilhosa, e levou o público ao delírio.
Entretanto, a grande surpresa do show foi a interpretação da tocante Canção
da América (unencounter), de Milton Nascimento e Fernando Brant.
A esta veio colada Lumiar (Guedes e Bastos), uma
grande favorita minha, aqui com pegada rockeira forte, e as emblemáticas Sol de
primavera (Guedes e Bastos) e Maria solidária (Milton e Brant). Nas
três, o artista optou por melodias alternativas em regiões mais graves,
poupando, sabiamente, possíveis constrangimentos de não entoar bem as notas que
não consegue mais alcançar com precisão. Em Feira moderna, os outros
integrantes da banda também realizaram as partes vocais, o que proporcionou
cores e possibilidades bem interessantes. Beto aproveitou para homenagear Lô
Borges, falecido em 2025, parceiro nessa canção junto a ele e Fernando Brant.
O público voltou a ter participação bastante ativa nas
duas músicas “finais”, parcerias riquíssimas entre Guedes e Bastos: Amor de índio
e Sal da terra. Com uma carreira permeada de destaques, mesmo após essa
sequência impecável de canções, ainda haviam outras guardadas para o bis: Cantar
(de Godofredo Guedes, pai do artista; Beto sempre contemplou composições de seu
pai em sua obra discográfica), Lágrima de amor (Luiz Guedes e Márcio
Borges) e Paisagem da janela (Lô Borges e Fernando Brant).
Em um show permeado por hits memoráveis e atemporais, Beto Guedes e banda misturaram rock, sensibilidade pop e imaginário popular de uma forma muito especial e inesquecível, deixando o público em deleite do início ao fim do espetáculo.



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