Entrevista com Analu - 27º Festival Jazz & Blues de Guaramiranga/CE

 


[Myrna Barreto e Renan Simões realizaram uma cobertura do 27º Festival Jazz & Blues de Guaramiranga/CE para o site Bolsa de Discos]

 

Entrevistamos Analu no dia 14 de fevereiro, sábado de Carnaval, no 27º Festival Jazz & Blues de Guaramiranga/CE. É a primeira vez da artista na cidade, embora já tenha se apresentado em Fortaleza. A artista, natural de Vitória da Conquista/BA, citou a artista e amiga Bia Gurgel, de Mossoró/RN. Nossa entrevista enfocou a trajetória e produção de Analu, bem como reflexões sobre o feminino na Música.

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - Quais seriam as influências musicais para o seu trabalho, para se tornar a Analu cantora que você é hoje?

Analu - Eu acho que as influências são coisas muito importantes para a vida de um artista, em qualquer sentido. Eu escuto muita música, e acho que muito do que eu sou é muito do que eu escuto. Eu escuto muito Djavan, eu escuto muito Gal, eu escuto muito Chico Buarque, muito Caetano, muito Rosa Passos, muito Marisa Monte e Maria Bethânia. Muito do que a gente escuta é muito do que a gente é, e minhas maiores referências são essas.

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - Como você avalia o espaço das mulheres na música brasileira? No geral, e também no universo do jazz e do blues.

Analu - Eu vejo as mulheres como uma grande força na música, num sentido geral, porque eu acho que as mulheres têm uma sensibilidade muito grande. Eu enxergo a mulher como um ser muito intuitivo, um ser de muito poder, e acho que a música traz esse poder. Quando eu escuto uma música cantada por uma mulher, eu sinto a música três vezes mais forte. Isso é uma experiência muito pessoal, mas eu sinto isso, e acho que as mulheres hoje ocupam um espaço muito importante de representatividade, de lugar de fala, de poder, sabe? E de composição. Eu conheço muitas mulheres compositoras e intérpretes maravilhosas, e isso é uma coisa que me deixa muito feliz. Tem muitas mulheres, até da atualidade, que eu admiro muito como intérpretes-compositoras: Antônia Medeiros, Mari Merenda, Vanessa Moreno, Dani Gurgel. São mulheres que me inspiram muito, que fazem música e fazem a gente ter vontade de fazer música, sabe?

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - Você já enfrentou alguma situação de desigualdade? Já foi subestimada no universo da música, do jazz, do blues, ou no mercado de maneira geral, pelo fato de ser mulher, ou não?

Myrna - Sim. A gente sofre desigualdade e é subestimada pelo fato de ser mulher, diariamente, em vários sentidos, não só na música. Musicalmente, eu sempre fui muito respeitada pelos meus colegas de trabalho. Eles sempre escutam muito do que eu falo, as minhas ideias, as minhas percepções. Já aconteceu há mais tempo, antes de eu começar a fazer faculdade. Às vezes, para darem credibilidade pra gente, a gente tem que se provar, e às vezes isso é um pouco difícil. A gente tem que ficar se provando o tempo todo, e isso às vezes é um pouco chato. Eu faço Música, eu faço faculdade de Música, e antes era uma coisa meio: trazer uma ideia e ser desdenhada, receber carões e tal. Isso é meio difícil.

Há também a questão da minha idade, pois eu sou muito nova, né? Isso além de ser mulher e estar no campo do jazz e do blues, da bossa nova, um lugar muito complicado nesse sentido da desigualdade, mas acho que as mulheres têm ocupado esses espaços de uma forma muito bonita, justa, real e promissora.

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - Existe diferença na forma da crítica do seu trabalho? Você acha que as pessoas entendem o seu trabalho ou mais distorcem o trabalho? Como é que você encara isso?

Analu - Eu sempre tive um público e uma crítica muito receptiva em relação ao meu trabalho. Pelas músicas que eu canto, pelo gênero musical que eu trago, pela história, de onde eu vim, quem eu sou. Então, eu acho que eu sempre fui uma artista que mostrei muito a minha verdade, sabe? Eu sempre fui muito eu, sempre fui muito sincera.

Querendo ou não, o público percebe isso de alguma forma, e eu tento traduzir isso nas músicas que eu canto: só escolho o repertório que eu gosto, as músicas que eu amo cantar. Isso se traduz muito na minha personalidade e na forma como as pessoas me enxergam como artista, como pessoa. Sempre fui muito bem compreendida nesse sentido.

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - Como é que você acha que festivais como esse, ou como festivais de uma forma em geral podem contribuir para reduzir as desigualdades?

Analu - Acho que contribuem sim. Eu fiquei muito feliz, inclusive, quando eu vi a grade de artistas que iam estar cantando aqui. A diversidade de corpos, a diversidade etária, a diversidade de gêneros musicais, no sentido geral. Eu fiquei muito feliz quando eu vi que dividiria o mesmo palco com a Rosinha [Rosa Passos], que vai cantar mais tarde. Então, tem essa diferença de idade considerável, mas a gente canta um repertório parecido e abraça a música juntas, abraça o jazz, o blues, e isso é muito gostoso.

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - O que você acha que ainda precisa ser feito estruturalmente na música, para que as mulheres possam se inserir cada vez mais, com mais respeito? Você tem algum olhar a respeito disso? Há algum ponto específico para ajudar nessa mudança?

Analu - Na área acadêmica, por exemplo, eu enxergo os professores: a maioria deles são homens. Em bandas, a maioria dos músicos são homens. As mulheres precisam ocupar mais esses espaços. Por quê? Porque eu conheço muitas mulheres musicistas, professoras de Música que são maravilhosas e que eu acho que poderiam ocupar lugares muito maiores. Eu gosto muito da Ana Karina Sebastião. Ela, para mim, é uma das maiores baixistas do Brasil, do mundo. Ela é uma grande inspiração, sou apaixonada por ela como musicista.

Acredito que é mais nesse sentido de dar espaço, de dar lugar, de ceder e de ouvir, sabe? Antes da gente falar, antes da gente cantar, a gente tem que ouvir. Antes da gente fazer, a gente escuta a música e a gente pensa. Então, eu acho que é mais nesse sentido de escutar o outro, de ouvir mais o que nós mulheres temos para dizer, porque a gente tem muita coisa.

 

Myrna Barreto (Bolsa de Discos) - Para encerrar, o que a gente pode esperar da Analu nos próximos trabalhos?

Analu - Eu estou sempre estudando, estou fazendo o segundo ano da faculdade de Música em São Paulo, onde moro há três anos. Espero muitos estudos, melhoria na qualidade dos instrumentos que eu toco. Também estou produzindo, pra esse ano, um disco com algumas parcerias muito legais da música brasileira. Estamos trazendo ritmos brasileiros muito legais, com muita percussão, um disco muito alegre, muito solar.

Pretendo conciliar a carreira artística com a universidade. Eu sei que vai ficar um pouquinho mais difícil, mas acaba que uma coisa se soma com a outra, porque eu estudo muito, na faculdade, coisas que eu aplico no meu dia-a-dia artístico, e isso é maravilhoso. Aí tudo é uma questão de equilíbrio, de ter os horários bonitinhos. É difícil, mas vai dar certo!



Crédito da Imagem: fotos de Renan Simões
Publicado também no site Bolsa de Discos

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