Ainda é necessário falar algo sobre Angine de Poitrine?

 


Sempre suspeitei de tudo que viraliza. Fico com o pé atrás quando muitas pessoas enfatizam, apaixonadamente, que algo é muito bom - afinal, o mercado cultural sabe como criar a euforia coletiva, em todos os nichos. Com isso, eu tenho dificuldade de abrir o coração para essas produções, não pela soberba de querer ser um ouvinte de “coisas que quase ninguém conhece”, mas porque, na maioria das vezes, o que é cultuado não me toca a alma.

Diversas pessoas me indicaram ouvir Angine de Poitrine. Achei muito suspeito. Do pouco que ouvi, achei algo legalzinho, divertido, mas nada muito consistente, muito menos revolucionário. Apenas dois mascarados tocando um rock instrumental bem popzinho e agradável. Ao longo de poucas semanas, a euforia em torno do grupo foi crescendo bastante, bem como o número de publicações sobre eles, o que me levou a querer conhecer um pouco mais. Como sou dos discos, fui conferir os dois álbuns do grupo - o segundo, recém-lançado.

Coloquei o primeiro disco para ouvir (Vol. 1). Decepção. Um dos grandes motes da banda é que eles abordam microtonalismo e complexidades rítmicas. Abordam sim, mas de forma beeeeem chulé. Como diria Ed Motta, furioso: “Primário! Primário! Isso é primário!”. É realmente um Chiclete com Banana meio esquisito para o rockeiro conservador, bem surf music tosco do espaço. Os riffs são fracos, genéricos e entediantes, resultando em uma música de fundo até agradável, mas que não leva a lugar nenhum. É algo sem conteúdo, para o consumo das grandes massas, simplesmente pela excentricidade da vestimenta e pelo anonimato (nada original nisso, diga-se de passagem). Trata-se de um grupo que não teria o menor impacto para além de uma cena local e de amigos. Entretanto, viralizou...

Um aspecto que realmente é abordado pela banda é o minimalismo, que infelizmente é evidenciado de forma bem chata nesse disco, pois os próprios conteúdos musicais são desinteressantíssimos. O registro, como um todo, não tem quase nenhum momento bom. Cabe ressaltar apenas um trecho lá para o final de Sherpa, e o riff lá pelo meio de Ababa hotel, que em pouco tempo se transforma em uma masturbação ruim.

A seguir, fui ao recém-lançado segundo álbum (Vol. II), do qual veio a maior parte do que tocaram no programa do KEXP, que tanto os viralizou. É um disco divertido, completamente diferente do primeiro; há muito mais camadas e muito mais dinamismo de ambos os músicos. Um registro leve, dançante e muito bem feito; somos surpreendidos a cada nova virada, e os discursos são muito bem construídos.

Fabienk, faixa de abertura, já demonstra o salto quântico do duo em relação ao disco de estreia. Entretanto, é na faixa seguinte, Mata zyklek, que ouço, enfim, uma abordagem mais relevante e criativa do microtonalismo e de complexidades rítmica. Sarniezz inicia com um ritmo quase engasgado e dá espaço ao grande riff do grupo. A levada de polca de Utzp remete a muitas músicas dos Los Hermanos; entretanto, diferente da banda brasileira, que queria se levar muito a sério, Angine de Poitrine está só fazendo piada. As duas últimas faixas (Yor zarad e Angor) mantêm um fluxo agradável para o fechamento do registro.

Vol. II é um disco prazeroso de ouvir, com algumas músicas que gostei, mas é bem provável que não o leve para minha vida. Afinal, há muita coisa que me é muito mais espetacular por aí.

Por fim, sobre viralização, globalização, tecnologia, capitalismo selvagem e colonialidade cultural de matriz inglesa, sempre haverá aquele questionamento: porque nenhuma das milhares de bandas, muito mais interessantes que essa, fora do eixo Inglaterra/Estados Unidos/Canadá, não viralizam?


Clique aqui para ouvir o álbum completo no YouTube



Crédito da Imagem: Wikipédia

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