Zé Ibarra na Estação das Artes de Fortaleza

 



[Myrna Barreto e Renan Simões realizaram uma cobertura do show de Zé Ibarra em Fortaleza para o site Bolsa de Discos]

 

No dia 27 de março de 2026, Zé Ibarra se apresentou de forma brilhante com sua banda na programação comemorativa de quatro anos da Estação de Artes de Fortaleza - em 2026, comemoram-se também 300 anos da cidade de Fortaleza e 60 anos da Secretaria da Cultura do Ceará. O artista integrou grupos muitos bem sucedidos nos últimos 10 anos - Dônica e Bala Desejo -, e inaugurou sua carreira solo em 2023, com o solitário Marquês, 256., ao qual se seguiu o incrível Afim (2025), simplesmente o álbum brasileiro de canções que mais me chamou a atenção desde Vista pro mar (2013), de Silva.

Como era de se esperar de um artista experiente, a carreira solo de Zé Ibarra vem sendo construída de forma bem consistente, por um músico com capacidades musicais bem acima da média de seus pares. Na escolha do repertório, na elaboração dos arranjos e na interpretação, seu álbum Afim contém o brio dos grandes álbuns da música, com uma unidade espetacular em meio à variedade. O repertório é inspirado, e contém arranjos nos quais os instrumentos se complementam de forma incrível. Cabe ressaltar que cinco das oito composições do álbum não são de Ibarra, o que demonstra a verve de intérprete do artista, além de compositor inspirado.

O show foi inaugurado com um destaque absoluto do artista, Segredo, com um refrão irresistível que foi cantado em coro pelos presentes. A composição é de Sophia Chablau, responsável também pela fraquíssima Hexagrama 28, tocada a seguir - única música ruim do álbum Afim. O artista alegou estar muito admirado com o público desse show, e afirmou que foi o maior público que ele já teve de seu projeto solo; mais tarde, ele confirmou essa admiração em sua página do Instagram.

O repertório seguiu com duas músicas de seu primeiro álbum solo: Vou-me embora (composição de Paulo Diniz) e Olho d’água (Caetano Veloso e Wally Salomão). Retornando ao segundo álbum, fomos presenteados com ótimas versões ao vivo de Da menor importância (uma interpretação bem diferente da original, da incrível cantautora Maria Beraldo) e Transe (composição do artista). O momento introvertido do show ficou por conta de Dó a dó (Dora Morelembaum e Tom Veloso) e Como eu queria voltar (Zé Ibarra, Tom Veloso e Lucas Nunes), à qual se seguiu uma versão bem suingada e desnecessária da sempre dispensável Lobo bobo (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli).

Após Vai atrás da vida que ela te espera (Guilherme Lamounier), Ibarra e banda atacaram com a eletrizante Morena (Tom Veloso) e Infinito em nós (Zé Ibarra), dois outros grandes momentos do álbum Afim - e do cancioneiro nacional. O momento voz-e-violão iniciou mal, com a fraca Hello (Sophia Chablau), mas seguiu em ótimo crescente com Toda gente (Mú Carvalho e Tuca Oliveira) e a esplendorosa Retrato de Maria Lúcia (Ítallo França), talvez a mais esperada pelo público, e que pareceu amolecer muitos corações. Ao final, tivemos a oportunidade de conferir um vislumbre do que estará no novo disco do artista (Meu último voo), a composição mais dolorosa do artista, realizada em parceria com Dora Morelembaum (Essa confusão), e a feliz repetição da música de abertura (Segredo).

Em resumo, temos um artista maduro se consolidando cada vez mais, na dupla função de cantautor e intérprete de músicas do passado - recente e mais remoto. Um artista já há muito acostumado com o palco, com uma banda excelente, mas que ainda está se encontrando sua medida certa enquanto artista solo no palco - para, por exemplo, reagir da melhor forma aos gritos de “gostoso”, ou para realizar falas relevantes de cunho político.

Ao final do show, uma fila de fãs aguardava pelas fotos e autógrafos de Zé Ibarra. A maioria empunhava a recém-lançada versão em LP de Afim da Noize Record Club, marcando, muito provavelmente, o primeiro show do artista com tantas pessoas com LPs para autógrafo. O artista nos recebeu de forma muito amável para uma breve fala.

 

Renan Simões (Bolsa de Discos) - Você é um artista incrível, com uma musicalidade muito acima da média. Eu gostaria de saber como se deu esse processo da construção da identidade de Zé ibarra, que começou com dois grupos muito bem-sucedidos, Dônica e Bala Desejo, se lançou como um artista solo, e em breve se transformou nesse cantautor, intérprete, arranjador, instrumentista e produtor bem maduro do segundo álbum. Como é que se deu esse processo?

Zé Ibarra - Essa sua pergunta não tem como responder agora. É uma coisa longa, mas a pergunta já contém a própria resposta. Eu comecei com a Dônica em 2015, depois toquei com o Milton [Nascimento], já compunha, já arranjava. Sempre fui produtor musical, sempre fui arranjador. Depois veio o Bala [Desejo]. Também fiz várias músicas com a galera, arranjei e tal. É a trajetória, eu acho que é a trajetória.

Eu sempre quis ser cantor pop, só que eu nunca abri mão das minhas verdades musicais, e nunca vou abrir. É isso que você falou aí, musicalidade e tal. Eu vou manter o que eu sinto perante a música, mas eu quero chegar ao que tá acontecendo aqui hoje; pra mim, é uma realização. É cantar pra multidão, as pessoas se tocarem, né? Tocados com a obra e chorarem, se divertirem. É isso, essa é a função do artista: tornar o mundo melhor em vários aspectos. Fazer alguns avisos também, como eu tentei fazer. Isso é o que é importante.



Crédito da Imagem: fotos de Myrna Barreto
Publicado também no site Bolsa de Discos

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