O Melhor da Música Brasileira de 2025
Zé Ibarra - AFIM
Os acordes iniciais de AFIM rememoram a canção Contacto
com o Mundo Racional, de Tim Maia. Entretanto, em poucos segundos, somos
arremessados ao universo musical de Zé Ibarra, um músico com muita
proficiência, repertório auditivo e bom gosto. Suas linhas melódicas e
encadeamentos harmônicos casam de forma muito perfeita com as sutilizas dos
arranjos e o molejo irresistível das levadas rítmicas. É uma música que
conforta, e que nos faz refletir e ter gosto pela vida. Infinito em nós
(composição de Ibarra), é uma abertura sublime, à qual se segue a imponente Segredo
(composta por Sophia Chablau).
Já fazia mais de 10 anos que eu não ouvia um álbum
brasileiro de canções que me animasse tanto. No geral, é notória a falta muita
proficiência musical dos artistas - não confundir com “estudo regular e
sistematizado de música”, mas com realmente ter os paranauê da música. De toda
forma, a ambiência sonora rasa do pop alternativo nacional é tangenciado pelo
artista, porém com muita propriedade e de forma interessante, em faixas como Transe
(de Zé Ibarra) e Retrato de Maria Lúcia (de Ítallo França).
No meio do registro, tenho a gratíssima surpresa de me
deparar com um cover fenomenal de Maria Beraldo (Da menor importância),
uma perspectiva totalmente diferente da versão original, seguida de uma
daquelas músicas que levamos pra vida: Morena (de Tom Veloso). O disco
poderia finalizar em alto nível com a tocante e delicada Essa confusão
(parceria entre Ibarra e Dora Morelembaum), mas o artista infelizmente insiste
com Hexagrama 28, única faixa ruim de AFIM.
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Taj Ma House - Taj Ma House EP
Tive a honra de entrevistar o grupo Taj Ma House no
Festival MADA 2025, em Natal; na ocasião, eu estava realizando uma cobertura do
festival, junto a Myrna Barreto, para o site Bolsa de Discos. O grupo tinha
acabado de lançar o seu EP de estreia, uma belíssima ode à pista de dança.
Taj Ma House é formado por quatro artistas consolidados
da cena musical potiguar, que no grupo cantam e atuam como DJs; há também instrumentos
de percussão tocados ao vivo. O resultado: uma grande festa house, com
generosas doses de positividade e rítmica pulsante. O EP, composto por três
faixas, traz um convite à dança em Fazendo a casinha, se consolida nas
repetições mântricas e beats alucinantes de Fazendo a cabeça, e se
despede em alto estilo com a arrasadora Tem que ter house.
Dê o play e se entregue à musicalidade irresistível do
grupo!
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Gaby Amarantos - Rock doido
Rock doido é
caos divertido do início ao fim. O álbum contém toda a intensidade e
musicalidade de uma festa de aparelhagem paraense, distribuídas em 22 faixas
curtas e diretas.
O convite à festa é feito por Gaby Amarantos logo na
abertura do disco, com Essa noite eu vou pro rock e Arrume-se comigo;
nessa segunda, há a repetição hipnótica das frases “Pra poder curtir o rock” e
“Arrume-se comigo”, algo muito presente em todo o registro. Há também espaço
para sonoridades de matriz oriental que dão de pau na música pop internacional
(Short beira cu e Dá-lhe sal), diálogos bizarros com o universo
infantil (Mamãe mandou e Tumbalatum), diálogo entre culturas
originárias e bagaceira (BBBBBBB e Rock doido é meu lugar) e
bizarrices diversas (Abraço e Cerveja voadora).
As músicas mais longas (ou seja, as com mais de 2 minutos
de duração) são grandes hits do gênero. Te amo fudido tem uma profundidade
pop invejável; é o som que o Coldplay faria se fosse do Pará. A breguice
romântica de Não vou chorar contrasta com o reerguimento empoderado de Viciada
em seduzir e Eu tô solteira. A declaração à base de guitarrada de Bonito
feio também faz um ótimo contraponto à finalização reflexiva de Deixa.
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DJ K - Rádio Libertadora!
Em seu terceiro álbum, DJ K apresenta, junto a seus MCs
convidados, a trilha perfeita para uma festa do mundo pós-Terceira Guerra
Mundial. Isso é favela funk pós-catástrofe. O artista faz coexistir, em uma
mesma faixa, frases tão díspares quando “Se matéria fosse putaria, nós seria [sic]
o Albert Einstein” e “Abaixo a Ditadura Militar!”.
Os ruídos são frenéticos e extremos, e beiram a
insuportabilidade após frases icônicas como “Levanta a mão pro alto só quem
gosta de xoxota!”. Beats eletrônicos pesadões reforçam a eterna putaria
heterossexual, tópica quase exclusiva do artista e do gênero. Eventuais
incursões de toques de berimbau, cantos árabes e beats que parecem vir de
músicas infantis só vêm somar positivamente à aura pós-tudo do registro.
Amar ou odiar? Indiferente é que não dá pra ficar.
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Seguem músicas brasileiras isoladas que mais me cativaram em 2025:
Jadsa - Sol na pele
Não sei porque, mas não curto músicas que citam pessoas
famosas. Ainda assim, o refrão pegajoso de Sol na pele, destaque
absoluto do álbum big buraco, de Jadsa, não saiu da minha cabeça: “Subindo
a ladeira eu vou / Ouvindo Caetano Veloso / Pensando nela, pensando nela”. Essa
música envolve, abraça e reverbera na mente. As sonoridades são perfeitas, e os
tambores de fundo têm um charme muito especial. Jadsa é uma artista incrível no
palco, além de um super ser humano para conversar - como conferimos na
entrevista que ela nos concedeu no Festival MADA 2025, em Natal.
Emmanuele Baldini / Lucas Thomazinho - Violin Sonata nº 2 (Francisco Mignone)
Em 2019, a gravadora Naxos inaugurou a série The Music of
Brazil, focada em compositores brasileiros (exclusivamente homens e já
falecidos, claro). O projeto possibilitou o resgate e registro de muitas obras
inéditas ou com gravações fora de catálogo, realizadas por grandes orquestras e
intérpretes brasileiros. Nenhum dos 12 CDs lançados entre 2024 e 2025 me
emocionou - os últimos que levei para a vida foram três lançados entre 2022 e
2023, contendo sinfonias de Claudio Santoro e obras sinfônicas de Edino Krieger,
todos pela Orquestra Filarmônica de Goiás.
De toda forma, curti a parceria entre o violinista
Emmanuele Baldini (spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e o
pianista Lucas Thomazinho, em um álbum no qual tocam todas as cinco sonatas
para violino e piano de Francisco Mignone. Desse registro, destaco a segunda
sonata, em movimento único, uma mistura esplêndida de modernidade eufórica,
arcos melódicos interessantes e muita virtuosidade musical e técnica.
Crédito da Imagem: ChatGPT

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