Hélio Mendes - “Week-end” em Guaraparí (1963)
“Week-end”
em Guaraparí (1963),
segundo álbum de Hélio Mendes e seu conjunto, manteve exatamente a mesma
formação de Week-end no Rio: Hélio Mendes (piano), Maurício de Oliveira
(guitarra), Cícero Ferreira (piston), Moacyr Barros (saxofone e clarinete),
Betinho (bateria), Marinho Carlos (acordeon), Edílio (contrabaixo) e Moacyr
Lima (ritmista). Os arranjos foram realizados por Hélio Mendes e Maurício de
Oliveira. No repertório, 9 das 12 músicas são brasileiras (no álbum anterior, eram
7 das 12), o que enriquece ainda mais o trabalho, já que estas caem como luvas
nas mãos do grupo.
A super batida Garota de Ipanema (de
Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes) ganha aqui um arranjo leve, porém
nada banal, com um belo diálogo envolvendo piano, saxofone, acordeon e guitarra
(Hélio Mendes, Moacyr Barros, Marinho Carlos e Maurício de Oliveira), que se complementam
nos temas e solos. Batida diferente (de Durval Ferreira e Mauricio Einhorn)
já nos soa mais fresca e refinada, assim como Mister Bossa Nova (Roberto
Menescal e Ronaldo Bôscoli), onde o trompete (Cícero Ferreira) surge pela primeira
vez, após um diálogo notável entre piano e guitarra (Hélio e Maurício). Moacyr
Barros alterna entre o saxofone e o clarinete no bolero Meu amor cigano
(Claribalte Passos), música que prepara o terreno para duas canções estadunidenses:
I could have danced all night (Alan Jay Lerner e Frederick Loewe) e Tender
is the night (Paul Francis Webster e Sammy Fain), esta o momento mais
dramático do registro, com um pianismo muito sentido de Hélio Mendes,
acompanhado de forma solene por Edílio, Betinho e Maurício (contrabaixo,
bateria e guitarra), e com um solo lamentoso de Moacyr Barros (saxofone).
A terra natal do grupo é homenageada em Guaraparí
(de Pedro Caetano, um paulista que era muito apaixonado pelo Espírito Santo). Guarapari
é uma cidade praieira capixaba que sempre foi exageradamente badalada; nessa resenha,
mantivemos o nome tal qual nos títulos do álbum e da faixa, conforme LP original,
com acento (Guaraparí), embora o correto atualmente seja sem acento. O clima
reflexivo de bolero continua em Tudo de mim (Evaldo Gouveia e Jair
Amorim) e na italiana Al di la (Mogol e Carlo Donida), mas dá uma
animada nas três faixas finais: Só danço samba (Antonio Carlos Jobim e
Vinicius de Moraes), Devagar com a louça (Haroldo Barbosa e Luiz Reis) e
Eu não tenho onde morar (Dorival Caymmi). Essas três apresentam vocais
dos integrantes, o que dá uma nova e rica dimensão musical dos integrantes. Cícero
Ferreira faz um solo picante de trompete em Só danço samba; o grupo realiza
harmonias vocais ousadas em um momento de Devagar com a louça; o ritmo
frenético de Eu não tenho onde morar exibe a virtuosidade do grupo,
especialmente do percussionista Moacyr Lima.
No
plano geral, o álbum tem um arco simétrico, decerto planejado: inicia com três
músicas brasileiras mais dançantes, seguidas de seis faixas mais calmas e
introspectivas (incluindo as três internacionais) e finaliza com três faixas
animadas com voz. Isso demonstra uma preocupação do grupo para além da escolha
do repertório, da elaboração dos arranjos e da emulação da energia do palco
para o estúdio: o cuidado com a retórica geral de sua arte no formato álbum.
Caso
queira adquirir uma cópia do livro O piano
e seu conjunto: vida e obra de Hélio Mendes, de Cínthia Ferreira, neta de Hélio Mendes, entre em
contato com a autora pelo Instagram: @cinthiaferreirasv
Clique aqui para ouvir o álbum completo no YouTube
Crédito da Imagem: Foto por Renan Simões

Comentários
Postar um comentário