Hélio Mendes - Sabor de Juventude (1967)

 


Sabor de juventude (1967) foi o sétimo e último álbum de Hélio Mendes e seu conjunto. Quanto aos músicos, o texto da contracapa do LP cita apenas Hélio Mendes e o pistonista e cantor Cícero Ferreira. Na versão em CD, são listados os seguintes músicos, de forma idêntica aos dois trabalhos anteriores: Hélio Mendes (piano), Maurício de Oliveira (guitarra), Cícero Ferreira (piston), Moacyr Barros (saxofone, grafado “Moacir Barros”), Edílio Santos (contrabaixo), Nilsio Gouvêia (bateria) e Moacyr Lima (percussão, grafado “Moacir Lima”). Com base nos álbuns anteriores, os arranjos devem ser de Hélio Mendes e Maurício de Oliveira. Sobre esses créditos, há diversas questões:

1 - O contrabaixo está desafinado em todas as faixas, o que atrapalha significativamente a fruição; isto me faz duvidar ser Edílio Santos o baixista, visto que ele toca impecavelmente nos seis álbuns anteriores do grupo;

2 - Não identifiquei saxofone em nenhum momento do registro;

3 - Na faixa Triste madrugada, há um diálogo constante entre trompete em voz, não sendo possível a mesma pessoa exercer as duas funções; ou seja, além de Cícero, há também outro pistonista ou cantor;

4 - Há um organista em várias faixas, músico que infelizmente não é creditado. De forma cômica, o texto da contracapa do LP dá ênfase ao organista, mas não revela seu nome:

 “A Musiplay tem a satisfação de apresentar o seu mais recente contratado, e tem dupla satisfação em ter a oportunidade de lançar esta novidade justamente no conjunto de Hélio Mendes, que é o organista que participou desta gravação em solos de órgão e como acompanhamento em alguns dos números que teremos o prazer de nos deliciarmos” [transcrito com pequenas correções].

Assim, podemos inferir a seguinte ficha técnica de Sabor da juventude: Hélio Mendes (piano e arranjos), Maurício de Oliveira (guitarra e arranjos), Cícero Ferreira (piston e voz principal), Nilsio Gouvêia (bateria), Moacyr Lima (percussão) e contrabaixista, organista e trompetista (ou cantor) desconhecidos.

O caderninho (composição de Olmir Stocker, o “Alemão”) já inaugura o registro com uma faceta mais “juventude” do conjunto. Trata-se de um sucesso de Erasmo Carlos, e conta com o tema apresentado de forma sublime pelo organista desconhecido, complementado por Maurício à guitarra. O sucesso Tema de Lara (de Maurice Jarre e Paul Francis Webster) é também do espectro da Jovem Guarda, apresentado aqui como um bolero arrastado e irresistível, com a guitarra chorada de Maurício. Triste madrugada (de Jorge Costa), a primeira com vocais, é um dos momentos mais amenos do álbum. O órgão retorna para a cama harmônica em Rossana (composição de Armando Trovaioli e Silvana Simoni, do filme Os 7 homens de ouro), além de realizar belos diálogos com o piano de Hélio Mendes.

A minimalista Palmas no portão (Walter Dionísio e D'Acri Luiz) tem uma pegada afro irresistível, e contrasta muito bem com Coisinha estúpida (Carson Parks), popularizada no Brasil em uma versão fofíssima de Leno e Lilian. The world we knew (Bert Kaempfert, Herbert Rehbein e Carl Sigman) possui um tema solene e grave realizado pela guitarra, com uma potente aura pianística e organística. Ponteio (Edu Lobo e Capinan) é capitaneada pelo trompete e voz de Cícero Ferreira - aqui sim há uma alternância entre as duas funções que permite que sejam realizadas pela mesma pessoa. This is my song (Charlie Chaplin) é outro momento ameno do repertório, e é seguida pelas elegantes Music to watch girls by (Sid Ramin) e The shadow of your smile (Paul Francis Webster e Johnny Mandel), ambas acenos ao repertório da Jovem Guarda e com ótimos solos de trompete, guitarra e piano. Simbolicamente, a conhecidíssima Está chegando a hora (Rubens Campos e Henricão) é a despedida de Hélio Mendes ao formato álbum.

De acordo com o livro O piano e seu conjunto: vida e obra de Hélio Mendes, escrita por Cínthia Ferreira, neta de Hélio, houve um desinteresse do artista pelo meio musical no final dos anos 60, devido à ascensão de gêneros musicais que não o agradavam (especialmente o rock), o que provocou uma diminuição das atividades de seu grupo. Provavelmente, a abordagem de músicas da Jovem Guarda pelo artista, em Sabor da juventude e no compacto duplo Em ritmo 2001, não era algo muito confortável para ele. Logo mais, em 1970, ele encerraria a sua carreira musical.

Caso queira adquirir uma cópia do livro O piano e seu conjunto: vida e obra de Hélio Mendes, de Cínthia Ferreira, neta de Hélio Mendes, entre em contato com a autora pelo Instagram: @cinthiaferreirasv


Clique aqui para ouvir o álbum completo no YouTube


Crédito da Imagem: Amazon

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