As 296 Melhores Músicas Brasileiras - #1 a #5
#5 Elis Regina - Como
Nossos Pais (1976)
Recentemente, nessa lista, tivemos
a versão de Como nossos pais por Belchior, compositor da canção.
Destaquei a atemporalidade da letra e sobre como cada palavra corta como faca.
Quando Elis Regina se apropriou dessa música, no mesmo ano, fomos levados à
estratosfera, em uma das performances mais definitivas da música.
#4 Chico Buarque &
MPB-4 - Roda Viva (1967)
Roda viva pode não ter ganhado o III
Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1967, mas foi e é um hino
reflexivo sobre a passagem do tempo, o que se adequa a muitas dimensões da vida.
Em parceria, Chico Buarque e o grupo vocal MPB-4 lançaram algumas pedradas
musicais, e foram, inclusive os grandes campeões do pódio dessa lista, como
veremos a seguir.
#3 Elis Regina & Tom
Jobim - Águas de Março (1974)
Quando criança, eu gostava
dessa música, por conta do desafio da letra longa e complexa. Ao longo dos
anos, fui achando uma música chata, embora essa versão tenha um arranjo
impecável de Tom Jobim e ótima interpretação dele e de Elis Regina. Não sei,
não bate mais, deve ser minha aversão à Bossa Nova. Enfim, esse foi o último
sucesso estrondoso desse movimento musical, cujo repertório canônico vai de
1958 e 1964, com pontuais canções posteriores. É uma queridinha das pessoas em
geral, o que gerou essa posição bastante privilegiada na lista.
#2 Chico Buarque &
MPB-4 - Construção (1971)
Construção é definitivamente a música mais
impactante e profunda da música brasileira; a melhor arranjada e com letra mais
crua. Em suma, a mais assustadora, em todos os sentidos. A composição é de
Chico Buarque, e o arranjo, de Rogério Duprat. É um tiro na cara da ditadura e
do capitalismo selvagem. É o escancaramento do sofrimento silencioso dos
invisíveis. Nos vocais, junto a Chico, o sempre competente MPB-4. Ao final,
quando pensamos que a música não tem mais pra onde explodir, há uma reprise da
música Deus lhe pague, o que aumenta ainda mais a tensão geral.
#1 Chico Buarque, Milton
Nascimento & MPB-4 - Cálice (1978)
[texto de Myrna Barreto]
Lançada sob o ar asfixiante
do AI-5, auge da ditadura militar no Brasil, Cálice não é apenas uma
composição de Chico Buarque e Gilberto Gil; é uma dinamite semiótica que
explode em significados possíveis entre o sagrado e o proibido; entre alusão
bíblica e denúncia contra a repressão política. Cálice traz em sua letra
poderosas metáforas sobre resiliência em regimes de exceção; o seu título é o
trocadilho central, que sugere tanto "Cálice" (o objeto litúrgico da
Eucaristia) quanto "Cale-se" (o imperativo do silenciamento imposto
pela censura).
Eu não lembro quando ouvi
essa música pela primeira vez, mas lembro muito bem da confusão emocional que
senti quando realizei uma escuta com maior atenção. Lembro do meu espanto
quando percebi a riqueza plural dos versos, pois tanto ressoava como uma prece
cristã de clemência e ao mesmo tempo como expressão de um imperativo de
silenciamento.
Vou ilustrar com algumas
passagens: o "vinho tinto de sangue" mencionado na letra, por
exemplo, traz o sagrado, mas também sugere a materialidade brutal da tortura e
do sacrifício humano; a "bebida” é “amarga" e a ingestão é
"tragar a dor" e "engolir a labuta" como um preço da
sobrevivência. Ainda sobre os dias difíceis da repressão: "como é difícil
acordar calado” e a "palavra presa na garganta" demonstram o
silenciamento.
Cálice é um testamento definitivo na música
brasileira e prova que é uma das mais potentes lições sobre a resistência do
espírito humano. Ela é o testemunho de que o grito, mesmo quando sufocado,
encontra formas de se fazer ouvir através da fresta da metáfora. Por esses
motivos e tantas outras razões, considero esta uma das grandes pérolas da nossa
cultura nacional.
Crédito da Imagem: Texto em Canva

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